quinta-feira, 19 de maio de 2022

Combate ao etarismo: como ir além do modismo?


É bem verdade que pautas ligadas a diversidade estão em alta nos últimos anos. Afinal, reforçar a importância dos direitos de mulheres, pessoas LGBTQIA+, pessoas negras e outros grupos minorizados é um tópico muito necessário.


Nesse movimento por uma sociedade mais diversa, também entra a questão etária, tratando especialmente da população 60+. Isso já tem virado tema de novela, pauta para influenciadores digitais e tema de conversas cotidianas.

Mas como ir além do modismo e de fato promover mudanças na sociedade que garantam os direitos da população idosa em todos os seus espaços?

Primeiro, temos que entender que qualquer problema social tem a “ponta do iceberg”, ou seja, aqueles problemas que são mais visíveis aos olhos das pessoas. Nesse caso, podemos considerar os diversos tipos de violência que um 60+ pode sofrer, seja ela física, psicológica ou financeira. Também entra nesse grupo a exclusão de idosos em espaços sociais, especialmente no mercado de trabalho.

Crédito: Dusan Petkovic/shutterstock



Além desses efeitos mais diretos do etarismo, temos também aqueles que são menos visíveis, mais sutis, porém são deles que pode surgir a violência direta. Por exemplo: a reprodução de estereótipos sobre pessoas com mais idade, as “piadinhas” sobre envelhecimento, os preconceitos que fazem muitos acreditarem que pessoas 60+ são incapazes de assumir funções e responsabilidades.

Então, para combater a discriminação etária, assim como qualquer outro tipo de discriminação contra algum grupo de pessoas, é necessário mitigar essas duas frentes.

Precisamos que pessoas e instituições se comprometam através de regras ou leis a não violentar, discriminar ou excluir pessoas por conta de sua idade. Pelo outro viés, é necessário que a sociedade mude a forma que enxerga pessoas 60+ e passe a tratá-las em pé de igualdade com as de qualquer faixa etária.

Certo, mas como colocamos isso em prática? Ilustrando melhor, temos abaixo uma lista de ações e boas práticas para incluirmos em nosso dia a dia, visando ajudar a acabar de vez com o preconceito etário: 
  1. Denunciando casos de violência ou discriminação contra pessoas 60+;
  2. Criando espaços adaptados a pessoas de todas as idades, facilitando a participação social e a mobilidade delas;
  3. Demandando que as empresas contratem pessoas por suas habilidades e experiências, sem olhar para a idade;
  4. Estimulando a integração geracional, especialmente no mercado de trabalho. Não basta contratar 60+, eles precisam estar bem integrados com toda a equipe;
  5. Evitando ou corrigindo comentários ou piadas que reforcem estereótipos negativos sobre a idade;

É claro que podemos incluir muito mais itens a essa lista para finalmente alcançarmos uma sociedade totalmente inclusiva a pessoas 60+, mas já temos um bom começo.

E você? Teria algo a incluir nessa lista?

sábado, 7 de maio de 2022

Um babaca ou um completo idiota? Você provavelmente tem um em sua vida

Redação do Diário da Saúde


Você conhece a Teoria dos Machos Idiotas? [Imagem: Gerd Altmann/Pixabay]


O maior babaca da sua vida

Todo mundo conhece pelo menos uma pessoa em sua vida que é irritante, exasperante e geralmente desagradável de se estar por perto - em outras palavras, um completo babaca.

E você sabia que existe um perfil bem característico entre esses babacas?

Pesquisadores descobriram que esses típicos "maiores idiotas" na vida das pessoas são, em sua maioria, homens de meia-idade, e cerca de metade dos "idiotas" eram ex-parceiros românticos, antigos chefes ou familiares distantes.

Os psicólogos pediram a quase 400 pessoas que pensassem no "maior babaca" de suas vidas para avaliar os traços que as pessoas associam ao termo: A maioria dos assim nomeados eram vistos como manipuladores, agressivos e se achavam o máximo.

Semelhança com distúrbios psicológicos

Esses traços de personalidade, juntamente com outros temas comuns como manipulação e irresponsabilidade, não caracterizam apenas "babacas" comuns. Estes são alguns dos mesmos traços destacados nos transtornos de personalidade psicopática, antissocial e narcisista - os pesquisadores ressaltam que essas semelhanças não significam necessariamente que o "seu babaca" tenha um distúrbio de personalidade.

"As pessoas realmente não tiveram muita dificuldade em descobrir quem era o 'maior babaca' em suas vidas," contou Brinkley Sharpe, da Universidade da Geórgia (EUA). "Na média, os participantes não achavam que eram muito próximos desses indivíduos, o que faz sentido porque essas pessoas estão sendo descritas como tendo comportamentos bastante aversivos."

Mas cerca de um em cada três dos "maiores idiotas" eram pessoas atualmente na vida dos participantes, incluindo colegas de trabalho, amigos e até parceiros românticos atuais.

Desagradáveis e raivosos

A maioria dos participantes acreditava que os idiotas em suas vidas estavam cientes de que seu comportamento incomodava as pessoas, mas simplesmente não se importavam o suficiente para mudar.

Essas pessoas muitas vezes pareciam não conseguir controlar sua raiva, eram irresponsáveis e tinham opiniões fanáticas.

"O que me pareceu interessante é que os comportamentos que as pessoas estavam descrevendo são uma espécie de escala," disse Sharpe. "Quando falamos de personalidade, o babaca foi descrito como alguém que não é agradável e está com raiva. Quando falamos sobre comportamentos, o idiota não estava necessariamente sendo antagônico em relação às pessoas, mas eles simplesmente não se importavam com o que os outros estavam pensando ou como eram percebidos pelos outros."

As respostas variaram desde reclamações aparentemente triviais, coisas como "Essa pessoa jogou fora a decoração da casa", até questões bastante graves. "Algumas das respostas foram bastante violentas," contou Sharpe. "Tivemos um casal em que o indivíduo fez algo que era francamente criminoso."

"Há claramente muita variação no modo como as pessoas usam essa palavra," disse Sharpe. "Eu acho que a implicação deste estudo é que os insultos importam. Nós queremos dizer certas coisas usando-os ou os associamos a certas características."

Checagem com artigo científico:


Artigo: They Are Such an Asshole: Describing the Targets of a Common Insult Among English-Speakers in the United States
Autores: Brinkley M. Sharpe, Courtland S. Hyatt, Donald R. Lynam, Joshua D. Miller
Publicação: Collabra Psychology
Vol.: 8 (1): 32552
DOI: 10.1525/collabra.32552

quinta-feira, 28 de abril de 2022

O que não caracteriza propaganda eleitoral antecipada

Lei das Eleições

"Artigo 36-A — Não configuram propaganda eleitoral antecipada, desde que não envolvam pedido explícito de voto, a menção à pretensa candidatura, a exaltação das qualidades pessoais dos pré-candidatos e os seguintes atos, que poderão ter cobertura dos meios de comunicação social, inclusive via internet: (Redação dada pela Lei nº 13.165, de 2015).

I — a participação de filiados a partidos políticos ou de pré-candidatos em entrevistas, programas, encontros ou debates no rádio, na televisão e na internet, inclusive com a exposição de plataformas e projetos políticos, observado pelas emissoras de rádio e de televisão o dever de conferir tratamento isonômico; (Redação dada pela Lei nº 12.891, de 2013).

II — a realização de encontros, seminários ou congressos, em ambiente fechado e a expensas dos partidos políticos, para tratar da organização dos processos eleitorais, discussão de políticas públicas, planos de governo ou alianças partidárias visando às eleições, podendo tais atividades ser divulgadas pelos instrumentos de comunicação intrapartidária; (Redação dada pela Lei nº 12.891, de 2013).

III — a realização de prévias partidárias e a respectiva distribuição de material informativo, a divulgação dos nomes dos filiados que participarão da disputa e a realização de debates entre os pré-candidatos; (Redação dada pela Lei nº 13.165, de 2015).

IV — a divulgação de atos de parlamentares e debates legislativos, desde que não se faça pedido de votos; (Redação dada pela Lei nº 12.891, de 2013).

V — a divulgação de posicionamento pessoal sobre questões políticas, inclusive nas redes sociais; (Redação dada pela Lei nº 13.165, de 2015).

VI — a realização, a expensas de partido político, de reuniões de iniciativa da sociedade civil, de veículo ou meio de comunicação ou do próprio partido, em qualquer localidade, para divulgar ideias, objetivos e propostas partidárias. (Incluído pela Lei nº 13.165, de 2015).

VII — campanha de arrecadação prévia de recursos na modalidade prevista no inciso IV do §4º do artigo 23 desta Lei. (Incluído dada pela Lei nº 13.488, de 2017)".

segunda-feira, 18 de abril de 2022

Quer melhorar a sua saúde? Tome este chá

Dr Juliano Teles

Sabe aquela visita de amigo? Quando chega na sua casa, senta no sofá e a conversa rende. Pois é isso que vim fazer hoje por aqui.

Aceita um chá? Fiz de carqueja.

Já sei o que vai me dizer: "Juliano, isso é muito amargo!"

Mas você nem imagina todos os benefícios que o chá de carqueja pode trazer para a sua saúde.

Muito cultivada e consumida pelos povos pré-colombianos aqui da América do Sul, a carqueja é fonte de vitaminas e minerais, além disso, ajuda a amenizar dores e é ótima para promover um efeito detox no organismo.

Isso porque ela tem propriedades antioxidantes, depurativas, anti-inflamatórias e tem alto teor de ferro, portanto, está com anemia? Tome chá de carqueja!

Apesar de rica em propriedades fitoterápicas e ser bastante nutritiva, a erva ainda é pouco consumida aqui no Brasil, uma pena!

Deixa eu te contar outros benefícios da carqueja:

- Fortalece o sistema imunológico: por ser rica em antioxidantes, a erva estimula a produção de glóbulos brancos, que são as células de defesa do nosso organismo.

- Combate a retenção de líquidos: a carqueja tem um excelente efeito diurético, devido à grande quantidade de flavonoides, ela estimula a eliminação de líquidos pela urina, combatendo o inchaço.

- Diminui a pressão arterial: justamente por seu efeito diurético, a carqueja ajuda a controlar a hipertensão.

- Auxilia no tratamento da gastrite: novamente, por conta dos flavonoides, o chá de carqueja é um ótimo auxiliar no controle dos ácidos estomacais, diminuindo a incidência de refluxo, azia e gastrite.

- Contribui para o controle do colesterol: agora não são os flavonoides, mas as saponinas (agentes fitoquímicos) que têm ação anti-inflamatória e controlam o colesterol presente no sangue, melhorando a saúde do seu sistema cardiovascular.

- Melhora o funcionamento do fígado: por ser rica em substâncias antioxidantes, a carqueja ajuda a eliminar toxinas presentes no organismo, que causariam danos no fígado.

Depois de ler tudo isso, te pergunto de novo: aceita um chá de carqueja?

sábado, 16 de abril de 2022

Bolsonaro acumula casos sob suspeita de corrupção

RANIER BRAGON E FABIO SERAPIÃO, no MSN


14/04/2022 - BRASÍLIA, DF, E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Jair Bolsonaro (PL), familiares e o seu governo acumulam uma série de casos de suspeita de corrupção, além de colecionarem ações no sentido de barrar investigações e esvaziar instituições de fiscalização e controle.

Veja abaixo uma lista de episódios envolvendo o presidente da República e pessoas próximas a ele.

AS SUSPEITAS DE CORRUPÇÃO SOB BOLSONARO

1. Funcionários fantasmas e rachadinhas nos gabinetes da família

O caso: Embora seja de período anterior à sua chegada à Presidência, há diversos relatos, investigações e documentos que levantam a suspeita de que Jair Bolsonaro e dois de seus filhos parlamentares, Flávio e Carlos, tenham mantido por anos funcionários fantasmas e esquema de "rachadinha" (apropriação de parte dos salários de servidores) em seus gabinetes. Em março, o Ministério Público do DF apresentou à Justiça uma ação pedindo a condenação do presidente por improbidade administrativa no caso Wal do Açaí, revelado em reportagem da Folha de S.Paulo de 2018. Outras reportagens da Folha e de outros órgãos de comunicação como as revistas Época e Veja e o jornal O Globo também mostraram fortes indicativos de funcionários fantasmas e rachadinhas nos gabinetes da família.

O que Bolsonaro disse e fez? Os Bolsonaros sempre negaram irregularidades, mas quase nunca responderam de forma direta às evidências dos supostos esquemas. Flávio e a família trabalharam também para barrar as investigações sobre o esquema das rachadinhas.

2. O caso Queiroz e o cheque na conta da primeira-dama

O caso: Em dezembro de 2018, o jornal O Estado de S. Paulo revelou documento do Coaf apontando movimentação atípica de R$ 1,2 milhão na conta de Fabrício Queiroz, assessor de Flávio Bolsonaro na Assembleia do Rio, além do depósito de R$ 24 mil na conta da futura primeira-dama, Michelle Bolsonaro.

O que Bolsonaro disse e fez? A família Bolsonaro e Queiroz sempre deram evasivas ou afirmações desencontradas para tentar explicar a história, cujas idas e vindas incluíram a prisão de Queiroz quando ele se escondia na casa do advogado dos Bolsonaros, Frederick Wassef, além da versão de Queiroz de que o dinheiro era proveniente da compra e venda de carros. Michelle nunca se manifestou sobre o caso. Bolsonaro disse que o cheque era parte do pagamento de uma dívida de R$ 40 mil com Queiroz, embora nunca tenha mostrado documentos ou extratos bancários comprovando isso. Quebra de sigilo revelada pela revista Crusoé mostrou que os depósitos de Queiroz na conta da primeira-dama somaram R$ 89 mil.

3. A multiplicação do patrimônio na política

O caso: Em 2018, ainda na pré-campanha, a Folha de S.Paulo mostrou que Bolsonaro e seus três filhos que têm mandato parlamentar apresentaram uma expressiva evolução patrimonial atuando quase que exclusivamente na política, com um total de 13 imóveis que somavam R$ 15 milhões em preço de mercado, a maioria em pontos altamente valorizados do Rio de Janeiro. Em 2021, Flávio comprou uma mansão em Brasília por R$ 6 milhões.

O que Bolsonaro disse e fez? Presidente e seus filhos sempre se recusaram a dar explicações sobre como reuniram esse patrimônio apenas com o salário parlamentar.

4. As candidaturas laranja

O caso: Conforme revelado em reportagens da Folha de S.Paulo, o PSL, partido pelo qual Bolsonaro se elegeu e hoje se chama União Brasil (após fusão com o DEM), promoveu esquema de desvio de recursos públicos por meio de candidaturas laranjas (simulação do lançamento de mulheres na disputa, apenas com o objetivo de desviar verba da cota de gênero para outros fins), nas eleições de 2018.

O que Bolsonaro disse e fez? Presidente manteve por quase dois anos em sua equipe o ministro Marcelo Álvaro Antônio (Turismo), que foi indiciado pela Polícia Federal e denunciado pelo Ministério Público em decorrência do caso.

5. Chefe da Secom recebia dinheiro de emissoras e agências contratadas pelo governo

O caso: O então chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, Fabio Wajngarten, recebia por meio de uma empresa da qual era sócio dinheiro de emissoras de TV e de agências de publicidade contratadas pela própria secretaria, ministérios e estatais do governo Bolsonaro. A PF abriu inquérito em janeiro de 2020 após reportagem da Folha de S.Paulo revelar o caso, mas não há notícia de conclusão.

O que Bolsonaro disse e fez? Pouco depois de o caso vir à tona, disse que Wajngarten não era criminoso e seguia firme no cargo. No mês seguinte, demitiu o chefe da Secom.

6. Obras suspeitas e sem licitação no Ministério da Saúde, no Rio

O caso: reportagem do Jornal Nacional, da TV Globo, mostrou que militares tentaram fazer na Superintendência do Ministério da Saúde no Rio obras de reforma sem licitação, firmadas com empresas suspeitas. Usaram a pandemia como justificativa para a dispensa de licitação. A AGU barrou os contratos e o coronel da reserva George George Divério perdeu o cargo de superintendente do Ministério no Rio.

O que Bolsonaro disse e fez: não se manifestou

7. Ministério do Meio Ambiente e madeireiras suspeitas

O caso: Ricardo Salles pediu demissão do Ministério do Meio Ambiente em junho de 2021, um mês após ser alvo de operação da Polícia Federal nas investigações sobre madeireiras suspeitas de contrabando no Pará.

O que Bolsonaro disse: reagiu à operação da PF dizendo que Salles era um ministro excepcional e que era vítima de setores aparelhados do Ministério Público.

8. Importação da vacina Covaxin para a Covid-19

O caso: Bolsonaro não adotou nenhuma providência comprovada após receber em março de 2020 relato do deputado federal Luís Miranda (União Brasil-DF) de corrupção envolvendo a importação da vacina indiana Covaxin. Inquérito policial foi instaurado mais de um ano depois, em meados de 2021, somente após as suspeitas virem à tona durante a CPI da Covid. Em depoimento ao Ministério Público revelado pela Folha de S.Paulo, o servidor da área técnica do Ministério da Saúde Luís Ricardo Miranda, irmão do deputado, relatou ter sofrido pressão atípica para tentar garantir a importação da vacina. O Ministério da Saúde suspendeu o contrato para obtenção de 20 milhões de doses da vacina, ao preço de R$ 1,61 bilhão.

O que Bolsonaro disse e fez? Ele disse ter repassado a denúncia de Miranda ao ministério, mas nunca apresentou comprovação disso. A investigação só foi aberta por pressão da ministra do STF Rosa Weber sobre a Procuradoria-Geral da República, que na gestão de Augusto Aras tem adotado uma linha amistosa em relação a Bolsonaro. Em março deste ano, Rosa negou pedido de Aras de arquivamento do inquérito e determinou que a investigação prossiga.

9. Compra de outras vacinas contra a Covid-19

O caso: Houve vários episódios nebulosos no processo de aquisição, pelo governo brasileiro, de vacinas contra a Covid. Em caso revelado pela Folha de S.Paulo, o cabo da PM e lobista Luiz Paulo Dominghetti acusou o então diretor de Logística do Ministério da Saúde Roberto Dias de cobrar US$ 1 de propina por dose da vacina AstraZeneca. Roberto Ferreira Dias foi exonerado no mesmo dia e hoje processa Dominghetti por crimes contra a honra. Em outro episódio, também revelado pela Folha de S.Paulo, o então ministro da Saúde Eduardo Pazuello prometeu a um grupo de intermediadores comprar 30 milhões de doses da vacina chinesa Coronavac oferecidas por quase o triplo do preço negociado pelo Instituto Butantan. Em outro caso, documento da área técnica do TCU (Tribunal de Contas da União) obtido pela Folha aponta "indícios robustos" de fraude em licitações por parte da empresa que forneceu ao Exército o insumo necessário à produção de cloroquina, em 26 licitações feitas entre 2018 e 2021.

O que Bolsonaro disse e fez? O governo sempre adotou o discurso de que não houve corrupção afirmando que as negociações sob suspeita não foram adiante.

10. Suspeitas contra os líderes do governo na Câmara e no Senado

O caso: Tanto Ricardo Barros (PP-PR), na Câmara, como Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), no Senado, foram objetos de suspeitas. Em setembro de 2021, a Polícia Federal fez operação que mirou funcionários do Ministério da Saúde e a empresa Global na gestão de Barros (2016-2018). A suspeita era de fraudes na aquisição de medicamentos de alto custo. Em outro episódio, o deputado Luiz Miranda (União Brasil-DF) afirmou que, na conversa em que relatou a Bolsonaro as suspeitas de corrupção na aquisição da Covaxin, o presidente disse a ele que isso "era coisa do Ricardo Barros". Fernando Bezerra, que deixou a liderança do governo em dezembro, foi indiciado pela PF em junho de 2021 por suspeita de receber propina em troca de obras no Ministério da Integração, comandado por ele. A PGR, comandada por Augusto Aras, pediu o arquivamento, mas o STF enviou o inquérito para a Justiça de Pernambuco. A Folha de S.Paulo também mostrou que emendas do senado viraram moeda de troca política e financiaram obras de má qualidade em seu reduto eleitoral.

O que Bolsonaro disse e fez? No caso de Barros, o presidente jamais negou a conversa com Miranda nem o seu relato. Afirmou ainda que não tem com saber o que acontece em seus ministérios. Sobre Bezerra, não se manifestou.

11. Emendas sem transparência

O caso: A prática de direcionamento de verbas pelas chamadas emendas de relator, em relação às quais há baixíssima transparência, ganhou fôlego de bilhões no governo Bolsonaro. Essas emendas, sobre as quais inicialmente reportagens do jornal O Estado de S. Paulo jogaram luz, alimentam redutos dos parlamentares e não obedecem a quase nenhum critério técnico ou de políticas públicas.

O que Bolsonaro disse e fez? "Ajuda a acalmar o Parlamento. O que eles querem, no final das contas, é mandar recursos para a sua cidade", afirmou em 11 de abril.

12. A aliança com o centrão e a blindagem a processos de impeachment

O caso: Apesar de sempre ter integrado partidos desse grupo, Bolsonaro conseguiu emplacar na campanha de 2018 o discurso de que representava a luta contra tudo o que há de pior na política, em especial o centrão. No poder, logo se aliou ao grupo, o que lhe permitiu se ver livre da ameaça dos mais de cem pedidos de impeachment que hoje estão na gaveta do presidente da Câmara e líder do centrão, Arthur Lira (PP-AL). Em troca dessa blindagem e da sustentação no Congresso, o centrão avançou sobre ministérios e diversas áreas do governo, entre elas o FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) e a Codevasf, além de controlar a distribuição de R$ 16,5 bilhões das emendas de relator.

O que Bolsonaro disse e fez? Presidente mudou completamente o discurso sobre o centrão e, inclusive, se filiou ao PL de Valdemar Costa Neto, com quem agora divide o palanque eleitoral.

13. Dinheiro na cueca e maços de dinheiro supostamente desviados da saúde

O caso: em dois episódios rumorosos, a PF apreendeu em outubro de 2020 dinheiro escondido nas nádegas do então vice-lider do governo Bolsonaro no Senado, Chico Rodrigues (RR). A suspeita era de desvio de dinheiro do combate à Covid. Em dezembro de 2021, a PF flagrou o deputado Josimar de Maranhãozinho (PL-MA), do partido de Bolsonaro, manuseando uma grande quantidade de maços de dinheiro. Ele é suspeito de desviar recursos da Saúde viabilizados por meio de emendas parlamentares.

O que Bolsonaro disse e fez? Disse, no caso de Chico Rodrigues, que a operação é uma prova que seu governo combate a corrupção. Sobre Maranhãozinho, não se manifestou.

14. O balcão de negócios do MEC

O caso: Sete dias após a Folha de S.Paulo publicar áudio em que Milton Ribeiro disse que privilegiava pastor evangélico a pedido de Bolsonaro, o ministro da Educação perdeu o cargo, em 28 de março. O balcão de negócios no MEC, cuja existência foi revelada inicialmente pelo jornal o Estado de S. Paulo, era operado por dois pastores evangélicos sem qualquer vínculo formal com a pasta e que participaram de 35 reuniões no Palácio do Planalto. De acordo com prefeitos, um deles chegou a cobrar propina em barra de ouro.

O que Bolsonaro disse e fez? O presidente disse que botava a cara no fogo por seu ministro. Quatro dias depois, foi publicada a exoneração de Milton Ribeiro.

15. O kit de robótica com ágio de 420%

O caso: Reportagem da Folha de S.Paulo mostrou que o governo enviou verba a prefeituras para compra de kit de robótica para escolas com gravíssimos problemas de infraestrutura, como falta de sala de aula, de computadores, internet e até de água encanada. A empresa que intermediou o negócio é de um aliado do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) que controla a distribuição das verbas usadas na compra dos kits. Em nova reportagem, A Folha mostrou que os kits foram vendidos às prefeituras com ágio de 420%.

O que Bolsonaro disse e fez? "Vai botar a culpa em mim? Não tenho nada a ver com isso", disse, apesar dos recursos serem do governo federal.

16. Empreiteira campeã de recursos na Codevasf ganhou licitações usando empresa de fachada

O caso: A Folha de S.Paulo mostrou que a empreiteira Engefort, que lidera contratos recentes da estatal federal Codevasf para pavimentação, ganhou diferentes licitações nas quais participou sozinha ou na companhia de uma empresa de fachada registrada em nome do irmão de seus sócios. O governo já reservou cerca de R$ 620 milhões do orçamento para pagamentos à empresa, sendo que R$ 84,6 milhões já foram desembolsados. A gestão Bolsonaro passou ainda a usar em larga escala uma manobra licitatória, em especial na Codevasf, sob controle do centrão, para dar vazão aos recursos, deixando em segundo plano o planejamento, a qualidade e a fiscalização, e abrindo margem para serviços precários e corrupção.

O que Bolsonaro disse e fez? Não se manifestou

17. Compra de ônibus escolares sob suspeita de superfaturamento

O caso: O Tribunal de Contas da União suspendeu no dia 5 a homologação de um pregão eletrônico para a compra de até 3.850 ônibus escolares para avaliar a suspeita de sobrepreço. Reportagem do jornal O Estado de S. Paulo informou que o processo ignorou alertas de superfaturamento de técnicos do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento de Educação) e da CGU (Controladoria-Geral da União).

O que Bolsonaro disse e fez? Cobrou a realização da licitação. "Veja o que vai acontecer, para ver o preço de cada ônibus. Esperar acontecer para a gente comentar sobre isso daí."

18. Jair Renan e a suspeita de tráfico de influência

O caso: Polícia Federal apura suspeita de tráfico de influência e lavagem de dinheiro na doação de um carro elétrico avaliado em R$ 90 mil por empresas do Espírito Santo a um projeto parceiro da empresa de Jair Renan, a Bolsonaro Jr. Eventos e Mídia. O empresário que fez a doação ao filho "04" foi recebido por Bolsonaro no Palácio do Planalto.

O que Bolsonaro disse e fez? Disse que Jair Renan vive com a mãe (uma de suas ex-mulheres), está longe dele "há muito tempo" e que não sabe se o filho está certo ou errado nesse caso.

19. Ciro Nogueira indiciado por corrupção

O caso: A PF afirmou neste mês que o ministro da Casa Civil de Bolsonaro cometeu os crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro por ter recebido propina da JBS em 2014.

O que Bolsonaro disse e fez? Não se manifestou.

20. Contratos com ONGs de prateleira

O caso: O governo Jair Bolsonaro (PL) autorizou o repasse de R$ 6,2 milhões a duas ONGs até então inativas e recém-assumidas pelo ex-jogador Emerson Sheik e por Daniel Alves, lateral-direito da seleção brasileira de futebol. Após a publicação da reportagem pela Folha de S.Paulo, o Ministério da Cidadania disse que Sheik desistiu do convênio.

O que Bolsonaro disse e fez? Não se manifestou .​

​AÇÕES CONTRA INVESTIGAÇÕES E ÓRGÃOS DE FISCALIZAÇÃO E CONTROLE

1. Augusto Aras, o PGR "excepcional"

Em uma atitude inédita, Bolsonaro ignorou a lista tríplice eleita pela ANPR (Associação Nacional de Procuradores da República) e escolheu em setembro de 2019 Augusto Aras para o comando da Procuradoria-Geral da República. O presidente nunca escondeu que buscava um aliado para a chefia do Ministério Público Federal, que tem como uma de suas principais atribuições investigar e denunciar políticos com foro, incluindo o presidente da República.

No dia da escolha, Bolsonaro chegou a dizer que estava fazendo "um bom casamento". Meses depois, chamou a conduta de Aras de "excepcional". O atual procurador-geral tem sido um dos principais responsáveis por barrar investigações e processos contra Bolsonaro e integrantes do governo.

2. 'Acabei com a Lava Jato'

Mesmo surfando desde a eleição no discurso anticorrupção, Bolsonaro e Aras trabalharam para sepultar a Força Tarefa da Lava Jato de Curitiba. "É um orgulho, uma satisfação que eu tenho dizer a essa imprensa maravilhosa nossa que eu não quero acabar com a Lava Jato. Eu acabei com a Lava Jato porque não tem mais corrupção no governo", disse Bolsonaro em outubro de 2020.

Meses depois, em fevereiro de 2021, Aras dissolveu formalmente o grupo, que já estava completamente esvaziado diante de decisões contrárias do STF e do vazamento de mensagens que mostraram um conluio entre os procuradores e o juiz Sergio Moro.

3. Trocas na Polícia Federal

Bolsonaro fez diversas mudanças na estrutura da Polícia Federal após reunião ministerial em abril de 2020 que, soube-se depois, quando o Supremo Tribunal Federal determinou a publicação do vídeo, deixou claro que iria interferir na Polícia Federal e não iria esperar "f****." alguém de sua família para poder tomar providências.

Em menos de quatro anos de mandato, Bolsonaro já trocou quatro vezes o diretor-geral da corporação. Maurício Valeixo foi substituído após demissão de Sergio Moro. Seu substituto, Rolando de Souza, foi trocado novamente por Paulo Maiurino. Este último deixou o cargo com menos de 10 meses no comando e deu lugar a Márcio Nunes.

A primeira troca de comando, após as acusações de interferência feitas por Moro, resultou em um inquérito. O caso foi arquivado em março e PF concluiu não ter havido interferência.

4. Pacote anticrime desfigurado

No final de 2019, Bolsonaro sancionou o chamado "pacote Anticrime" de Sergio Moro (Justiça) nos moldes aprovados pelo Congresso, que alterou praticamente toda a proposta elaborada pelo então ministro e incluiu vários pontos para esvaziar a Lava Jato.

5. Afrouxamento da Lei de Improbidade e de outras normas

O centrão aprovou e Bolsonaro sancionou em outubro de 2021 sem vetos lei que esvazia as regras de investigação contra improbidade administrativa, exigindo que se comprove a intenção de lesar a administração pública para que haja crime. No mês anterior, havia sancionado lei que afrouxa a Lei de Inelegibilidades. Bolsonaro também editou em maio de 2020 medida provisória para proteger agentes públicos de responsabilização por atos tomados durante a crise do novo coronavírus.

6. Flávio Bolsonaro e a cruzada contra as investigações da "rachadinha"

Flávio Bolsonaro acionou a estrutura do governo do pai para tentar reunir elementos que lhe permitissem barrar as investigações do caso das rachadinhas. Entre outros órgãos, a Folha de S.Paulo mostrou que servidores da Receita Federal foram mobilizados por quatro meses para investigar colegas do órgão que, supostamente, teriam municiado investigadores com dados fiscais de Flávio e de familiares.

Em novembro de 2021, o STJ (Superior Tribunal de Justiça) anulou as todas as decisões tomadas pela primeira instância da Justiça do Rio no caso das "rachadinhas". O argumento principal foi o de foro privilegiado, recurso que sempre foi execrado pela família Bolsonaro, até o caso de Flávio.

7. Sigilo de visitas ao Planalto de pastores do 'balcão de negócios' do MEC

O governo colocou em sigilo a lista de vezes que pastores suspeitos de transformar o MEC em um balcão de negócios foram ao Palácio do Planalto. Bolsonaro chegou a ironizar um internauta que questionava se ele estaria querendo esconder alguma coisa. "Em 100 anos saberá."

Após a repercussão do caso, o governo recuou e liberou a lista nesta quinta-feira (14), mostrando que os pastores suspeitos frequentaram o Palácio do Planalto durante todo o governo Bolsonaro, em 35 ocasiões.

8. ​Controladoria-Geral da União

Órgão tem tido atuação bem menos incisiva do que em anos anteriores. Em agosto, por exemplo, recebeu denúncia sobre irregularidades envolvendo pastores e a liberação de verbas do MEC, mas só encaminhou as suspeitas à PF após o caso ser noticiado pela imprensa.

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Motociata de Bolsonaro reúne 3.703 motoqueiros

terça-feira, 12 de abril de 2022

Raio X de redações nota mil do Enem 2021: professores analisam estrutura de textos que atingiram pontuação máxima

Introdução apresentando o tema, repertório cultural bem integrado ao parágrafo, uso de elementos coesivos: veja os ingredientes-chave usados por 8 alunos que tiraram mil na dissertação.

Por Luiza Tenente, g1

12/04/2022 |  Como escrever uma redação nota mil no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem)? Na última edição, dos mais de 2 milhões de candidatos, só 22 conseguiram atingir a pontuação máxima. O que eles fizeram de extraordinário? Por que esses textos chamaram a atenção dos corretores?

A pedido do g1, duas professoras de língua portuguesa analisaram oito dessas dissertações (leia as íntegras aqui) e traçaram um raio X: destacaram 9 estratégias seguidas pelos alunos que colaboraram para o sucesso deles.

Veja a seguir (e tente se inspirar para a prova de 2022):

1- Introdução no capricho: apresentando o problema logo de cara

O tema da redação do Enem 2021, na aplicação regular, foi "Invisibilidade e registro civil: garantia de acesso à cidadania no Brasil".

Veja só a introdução "nota mil" de Giovanna Dias, de 19 anos:

Em sua obra “Os Retirantes”, o artista expressionista Cândido Portinari faz uma denúncia à condição de desigualdade compartilhada por milhões de brasileiros, os quais, vulneráveis socioeconomicamente, são invisibilizados enquanto cidadãos. A crítica de Portinari continua válida nos dias atuais, mesmo décadas após a pintura ter sido feita, como se pode notar a partir do alto índice de brasileiros que não possuem registro civil de nascimento, fator que os invisibiliza. Com base nesse viés, é fundamental discutir a principal razão para a posse do documento promover a cidadania, bem como o principal entrave que impede que tantas pessoas não se registrem.

Giovanna mencionou a obra "Os Retirantes" para apresentar a situação-problema (brasileiros que não têm registro civil e que se tornam, por isso, invisíveis).

"Não é obrigatório colocar algum repertório sociocultural logo na introdução, mas é um ganho e tanto, porque o leitor consegue perceber mais facilmente qual tema será abordado", explica Marina Rocha, professora de redação do Colégio e Curso AZ.

No fim do primeiro parágrafo, a aluna também adianta o que será desenvolvido no restante do texto: "a principal razão para a posse do documento promover a cidadania" e "o principal entrave que impede que tantas pessoas não se registrem".

"Antecipar o que vai vir nos parágrafos seguintes representa um bom projeto de argumentação", acrescenta Bruna Moscardo, professora de redação do Curso Anglo.

2- Repertório cultural bem integrado ao texto

A seguir, confira dois trechos de redações nota mil com repertórios culturais (citações a livros, pinturas, filmes, filósofos etc):

Fernanda Quaresma: Em “Vidas secas”, obra literária do modernista Graciliano Ramos, Fabiano e sua família vivem uma situação degradante marcada pela miséria. Na trama, os filhos do protagonista não recebem nomes, sendo chamados apenas como o “mais velho” e o “mais novo”, recurso usado pelo autor para evidenciar a desumanização do indivíduo. Ao sair da ficção, sem desconsiderar o contexto histórico da obra, nota-se que a problemática apresentada ainda percorre a atualidade: a não garantia de cidadania pela invisibilidade da falta de registro civil.

Sarah Rosa: O clássico da literatura infantil inglesa "Oliver Twist" aborda as vivências daqueles marginalizados durante a Era Vitoriana e a forma como eram considerados invisíveis por não pertencerem à lógica social. Essa percepção sobre uma parcela considerável da população dialoga, analogamente, com a realidade atual de inúmeros brasileiros que não possuem acesso aos seus direitos civis por não apresentarem os registros primários necessários à inserção como cidadãos no próprio país.

A professora Bruna Moscardo destaca que Fernanda e Sarah não se preocuparam em apenas citar "Oliver Twist" e "Vidas Secas": elas também estabeleceram uma relação com o número de brasileiros sem acesso a direitos civis.

"Fazer conexões entre o repertório cultural e o tema da redação ajuda a ganhar pontos na competência número 2 [compreender a proposta e aplicar conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolvê-la]", afirma.

3- Uso de elementos coesivos

A docente Marina Rocha observa que as oito redações nota mil analisadas usam elementos coesivos ao longo de todo o texto, como "ademais", "além disso", "portanto", "com efeito", "consequentemente" e "desse modo".

Veja exemplos:

Giovanna Gamba Dias: Com efeito, nota-se que a importância da certidão de nascimento para a garantia da cidadania se relaciona à sua capacidade de proporcionar um sentimento de pertencimento.

Sarah Fernandes Paulista Rosa: Há, portanto, a urgência de findar essa problemática notória na estrutura do Brasil.

Maitê Maria: Outrossim, é válido destacar a ausência de engajamento social como fator que corrobora a invisibilidade intrínseca à falta de documentação.

4- Propostas de intervenção completas

Todos os textos nota mil analisados apresentam propostas de intervenção completas. Veja um exemplo a seguir, da aluna Evely Lima:

Fica evidente, portanto, a necessidade de garantir o acesso à cidadania para todos no Brasil. Destarte, o Governo Federal, responsável por administrar o povo e os interesses públicos, com o apoio do Ministério da Cidadania, a partir de medidas governamentais destinadas à pasta, deve disponibilizar benefícios financeiros sociais para cidadãos que não tenham como pagar a retirada de um registro civil. Essa ação será realizada com o intuito de custear a posse desse documento importante, para que também, a sociedade não naturalize a intolerância que a permeia. Dessa maneira, com a conjuntura de tais ações, os brasileiros verão o direito garantido pela Constituição, como uma realidade.

Ela cumpre os cinco ingredientes obrigatórios ao propor uma solução:

agente: "governo federal, com o apoio do Ministério da Cidadania"
ação: "disponibilizar benefícios financeiros"
detalhamento: "para cidadãos que não tenham como pagar a retirada de um registro civil"
meio de execução: "medidas governamentais destinadas à pasta"
finalidade: "intuito de custear a posse desse documento importante, para que também a sociedade não naturalize a intolerância que a permeia".

5- Título? Só se for criativo

Sarah Rosa foi a única, na amostra analisada, que escolheu intitular seu texto: "Ser é ser percebido". É uma frase do filósofo George Berkeley.
Trecho da redação nota mil de Sarah — Foto: Reprodução


"Colocar título na redação até é permitido, mas não obrigatório. É uma questão de estratégia, porque você vai ocupar uma linha inteira com isso e talvez perder espaço para fazer uma boa proposta de intervenção, por exemplo", afirma Marina Rocha.

"Vale a pena quando é um título legal, como o da Sarah, que fugiu do óbvio e ainda citou um repertório cultural ali."

6- Linguagem formal (sem gírias ou abreviações)

"Muitos alunos, em anos anteriores, estavam abreviando palavras [na redação], por causa do uso do celular, ou escrevendo de maneira muito coloquial, com marcas de oralidade", afirma Marina Rocha.

"Você não precisa usar mesóclise [colocação pronominal como em 'pegá-lo-ei'], mas deve seguir um padrão formal no Enem."

Veja um trecho que evidencia o uso da norma padrão:

Daiane Souza: Diante desse cenário, percebe-se que a invisibilidade acerca da questão do registro civil é motivada pela falta de uma política pública eficaz que regularize essa problemática. Isso ocorre, principalmente, porque, como já mencionado nos estudos da antropóloga Lilia Schwarcz, há a prática de uma política de eufemismos no Brasil, ou seja, determinados problemas tendem a ser suavizados e não recebem a visibilidade necessária.

7- Textos impessoais, sem relatos subjetivos

Vamos supor que o candidato, ao ler a proposta de redação do Enem 2021, tenha se lembrado especificamente do avô paterno, que não foi registrado em cartório. É indicado citar o exemplo no texto? Jamais.

"A dissertação deve ser impessoal. O corretor não deve saber da personalidade do aluno, de onde ele fala, de qual seja a sua história. Não é para falar da própria vida", explica Rocha.

"O que cabe é montar uma argumentação com leis, fatos históricos, livros, séries, filmes ou conteúdos que defendam uma ideia de maneira não subjetiva."

A candidata "nota mil" Iasmin Ferreira até pode ter se lembrado de algum problema de formação educacional em sua trajetória, mas escreveu da seguinte forma:

Além disso, é válido ressaltar que a lacuna no sistema de educação potencializa essa conjuntura. Isso acontece porque, desde o século XX, com a implementação de um formato tradicionalista de ensino pelo ex-presidente Vargas, cristalizou-se um modelo educacional que negligencia o aprendizado de temas transversais, a exemplo de concepções básicas da cidadania.

8- Uso inteligente da coletânea de textos

Sempre, na proposta de redação do Enem, a prova traz uma coletânea de textos (tirinhas, mapas, trechos de teses, letras de música) para situar o aluno no tema.

É preciso usar esse material com cautela. O Inep atribui nota zero para quem:

copiar uma sequência de três ou mais palavras iguais às dos textos motivadores ou das questões;

alterar apenas o singular ou plural, ou o tempo verbal dos excertos;

reproduzir as mesmas frases, omitindo apenas algumas palavras ou invertendo trechos.

Mas, calma, não é preciso ignorar esses textos, com medo do "zero". A professora Moscardo destaca um trecho da redação de Maitê Maria no qual a aluna consegue mencionar uma informação da coletânea de maneira correta:

Coletânea

Texto motivador trouxe informação sobre legislação — Foto: Reprodução/Inep



Referência na redação de Maitê:

Nesse sentido, ainda que a gratuidade do registro de nascimento seja assegurada pela lei de número 9.534 da Carta Magna, os problemas associados à documentação civil ultrapassam a esfera financeira, haja vista que a demanda por registros civis é incompatível com a disponibilidade de vagas ofertadas pelos órgãos responsáveis, o que torna o processo lento e burocrático.

"Ela não reduziu a referência só a uma paráfrase. Trouxe o documento jurídico para dar fundamento para a sua ideia", diz Moscardo.

9- Sem garranchos!

As oito redações nota mil analisadas pelo g1 foram escritas com caligrafia clara. Veja dois exemplos:

Trecho da redação nota mil de Emanuelle — Foto: Divulgação


Evely tirou nota mil na redação do Enem — Foto: Divulgação


Não adianta seguir todas as outras dicas, arrasar na introdução, elaborar uma proposta de intervenção impecável... mas não ser compreendido pelos corretores do Enem.